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A Fundação da COMAB
Em 9 de junho de 1973, em Brasília, Grandes Orientes Estaduais independentes fundam a COMAB — terceira federação maçônica brasileira —, completando o mosaico plural que distingue a Maçonaria do Brasil no mundo.
Em 9 de junho de 1973, na capital federal de Brasília — cidade que ela própria era obra da ousadia federalista dos anos 1960 —, representantes de Grandes Orientes Estaduais independentes reuniram-se para fundar a COMAB: Confederação Maçônica do Brasil. Era a terceira federação maçônica a se estabelecer no país, e sua criação completou o mosaico institucional que faz da Maçonaria brasileira um caso sem paralelo no mundo.
Para entender o que nasceu naquele junho, é preciso recuar a 1964.
O pano de fundo: a ditadura militar e as fissuras internas
O golpe civil-militar de 1 de abril de 1964 instaurou um regime que duraria vinte e um anos. Para as associações voluntárias, inclusive as maçônicas, o período trouxe um dilema familiar: como preservar a instituição num ambiente hostil a organizações não controladas pelo Estado, sem abandonar os princípios que justificavam a existência da Maçonaria?
O Grande Oriente do Brasil — fundado em 1822, sediado em Brasília desde que a capital mudara do Rio de Janeiro em 1960 — respondia a essa questão com a mesma estratégia que havia adotado no Estado Novo: cautela, baixo perfil, neutralidade política declarada. Para muitas lojas estaduais, essa postura parecia insuficiente — ou pior, cúmplice. A centralização administrativa do GOB, combinada com o que alguns membros percebiam como acomodação ao regime, gerou insatisfação em estados como Pará, Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Mato Grosso, entre outros.
Paralelamente, as lojas que já haviam se separado do GOB para integrar a CMSB — a Confederação das Grandes Lojas Estaduais, fruto do movimento iniciado em 1927 — tampouco atraíam a adesão de todos. Havia uma terceira via buscando expressão: obediências que queriam o modelo de Grande Oriente (sem a estrutura hierárquica de “graus superiores” que marca o modelo de Grande Loja no sistema escocês), mas sem a subordinação ao GOB.
O modelo COMAB
A COMAB nasce como federação de Grandes Orientes Estaduais independentes — cada um soberano em seu território, sem subordinação a qualquer autoridade nacional acima da confederação. O modelo é explicitamente federativo no sentido estrito: a COMAB coordena e representa, não dirige.
Em termos de orientação filosófica, a COMAB tende a ser mais próxima da tradição francesa — o Grande Oriente de França (GOdF) —, que desde o século XIX adota uma postura mais liberal em questões de religião e política, não exigindo de seus membros a crença em um “Ser Supremo” como condição de iniciação. Essa postura contrasta com a linha anglófona seguida pelo GOB e pela CMSB, que exigem tal crença como pré-requisito e buscam o reconhecimento da United Grand Lodge of England (UGLE).
Que cada estado tenha seu Oriente — porque o Brasil é federação, não império, mesmo na fraternidade.
Essa diferença não é apenas teológica. Ela define quais lojas são consideradas “regulares” por quais autoridades, e portanto com quais lojas estrangeiras os maçons brasileiros podem visitar e fraternizar. A questão da “regularidade” — quem reconhece quem — é o campo de batalha simbólico mais persistente da Maçonaria mundial, e o Brasil, com suas três federações, é o teatro mais complexo desse debate.
Três federações, um país
Com a fundação da COMAB, o Brasil passa a contar com três grandes estruturas paralelas:
- GOB — Grande Oriente do Brasil, fundado em 1822, com jurisdição nacional histórica, alinhado à tradição anglófona, sediado em Brasília.
- CMSB — Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil, federação das Grandes Lojas Estaduais surgidas a partir de 1927, também de orientação anglófona.
- COMAB — Confederação Maçônica do Brasil, fundada em 1973, federação dos Grandes Orientes Estaduais independentes, de orientação mais próxima à tradição francesa.
Nenhuma dessas federações reconhece as demais de forma plena e universal. Há acordos parciais, visitas toleradas, proximidades táticas — mas a fragmentação institucional é estrutural. Um maçom iniciado numa loja da COMAB pode não ser reconhecido como “regular” por uma loja do GOB, e vice-versa. As fronteiras são porosas na prática, mas rígidas no discurso oficial.
O legado: diversidade como traço nacional
O que a fundação da COMAB em 1973 consolidou não foi apenas uma nova organização — foi a confirmação de que a Maçonaria brasileira seria, estruturalmente, plural. Ao contrário da maioria dos países, onde uma única Grande Loja detém o monopólio do reconhecimento e da representação maçônica nacional, o Brasil optou — ou melhor, chegou organicamente — a um modelo de coexistência de federações com orientações distintas.
Hoje, a COMAB congrega 27 Grandes Orientes Estaduais, um para cada estado da federação e o Distrito Federal. O paralelismo com a estrutura política do país é quase perfeito: assim como o Brasil tem 26 estados mais o DF, a COMAB tem 27 obediências estaduais. A Maçonaria imita, uma vez mais, a república que ajudou a construir.
— personagens —
Grandes Orientes Estaduais fundadores
Obediências estaduais independentes que não se filiavam nem ao GOB nem à CMSB
— fontes —
- História do Grande Oriente do Brasil — Kennyo Ismail
- A Maçonaria no Brasil: Uma Perspectiva Histórica — Cláudio Oliveira Ribeiro
- Regularidade Maçônica e o Caso Brasileiro — Estudos maçônicos comparados