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O Tricentenário da Maçonaria Moderna

Em 24 de junho de 2017, cerca de quatro mil maçons de mais de cem países reuniram-se no Royal Albert Hall de Londres para celebrar os trezentos anos da Grande Loja de Londres — a maior reunião maçônica formal da história moderna.

data24 de junho de 2017 localMundo

Na noite de 24 de junho de 2017, o Royal Albert Hall de Londres — aquela catedral vitoriana de tijolos vermelhos que já recebeu desde os Beatles até as últimas homenagens a Stephen Hawking — estava tomado por homens de avental branco. Cerca de quatro mil maçons, vindos de mais de cem países, reuniram-se para celebrar um aniversário de três séculos. A data era o dia de São João Batista, padroeiro da Maçonaria, e o evento era o maior encontro formal de maçons da história moderna.

Trezentos anos antes, em 24 de junho de 1717, quatro lojas de Londres haviam se reunido numa taverna chamada Goose & Gridiron para fundar a Grande Loja de Londres — a primeira Grande Loja do mundo e o modelo a partir do qual toda a Maçonaria moderna se organizaria. O que nascera naquela tarde entre fumaça de cachimbo e copos de cerveja havia se espalhado por todos os continentes, em mais de cento e cinquenta países, com estimativas que variam entre quatro e seis milhões de membros no mundo.

A cerimônia e seu significado

O programa do tricentenário na United Grand Lodge of England (UGLE) foi cuidadosamente arquitetado como mensagem ao mundo. O Duque de Kent, Grão-Mestre da UGLE há mais de cinquenta anos — o mais longo mandato na história da instituição —, presidiu as cerimônias. Delegações de obediências dos cinco continentes participaram com seus estandartes e trajes tradicionais. O espetáculo era, ao mesmo tempo, celebração interna e declaração pública: a Maçonaria existe, é global, e não tem vergonha de ser vista.

Esse segundo aspecto — a visibilidade deliberada — era talvez o mais significativo. Ao longo do século XX, a Maçonaria havia recuado do espaço público em resposta à onda de teorias conspiratórias que a associavam a controles ocultos dos governos, às perseguições de regimes autoritários e ao crescente ceticismo das novas gerações. O tricentenário foi uma aposta na direção oposta: quanto mais transparência, menos terreno para o mito.

Trezentos anos depois, ainda construímos a mesma catedral invisível — pedra a pedra, irmão a irmão.

— Tom institucional das celebrações do tricentenário (paráfrase)

Para ilustrar essa abertura, a UGLE permitiu que equipes de televisão filmassem o interior de cerimônias e reuniões para o documentário “Inside the Freemasons”, produzido para a ocasião e exibido pela Sky 1 no Reino Unido. Era a primeira vez que câmeras adentravam o interior de lojas ativas com acesso tão amplo. O objetivo declarado era desmirar: mostrar que há ritual, há hierarquia, há simbolismo — mas não há conspirações.

O Brasil celebra em paralelo

Do outro lado do Atlântico, as três grandes federações brasileiras — GOB, CMSB e COMAB — organizaram celebrações independentes e paralelas. Em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, eventos commemorativos reuniram maçons brasileiros em sessões solenes. Algumas Grandes Lojas e Grandes Orientes estaduais realizaram sessões abertas ao público pela primeira vez — experiência inédita em muitas delas, onde as portas haviam permanecido fechadas para não-iniciados por décadas.

A Grande Loja do Estado de São Paulo e o Grande Oriente de Pernambuco estiveram entre as obediências que promoveram eventos com presença de convidados externos. Exposições históricas mostraram documentos e objetos rituais; palestras explicaram a história e a filosofia maçônica sem revelar os segredos do rito. Era a mesma mensagem de Londres, adaptada ao calendário brasileiro.

O movimento de abertura e seus limites

O tricentenário de 2017 acelerou um movimento que já estava em curso há alguns anos: a Maçonaria decidindo ativamente combater o mito da sociedade secreta com mais presença pública, não com mais silêncio. Sites oficiais foram reformulados para ser mais acessíveis; redes sociais foram adotadas por muitas obediências; comunicados de imprensa passaram a ser rotina onde antes havia silêncio absoluto.

No Brasil, esse movimento encontrou terreno fértil num contexto de polarização política crescente. Algumas lojas viram no tricentenário uma oportunidade de reafirmar valores como tolerância, diálogo e pluralismo — valores que, não por acaso, são também parte do vocabulário maçônico mais antigo.

Os limites dessa abertura são reais, porém. A Maçonaria pode abrir suas portas para exposições e palestras, mas os ritos permanecem fechados aos não-iniciados. Pode falar de seus valores, mas não pode revelar seus procedimentos internos sem deixar de ser o que é. A tensão entre transparência e discrição iniciática é constitutiva da instituição — e o tricentenário não a resolveu, apenas a tornou mais visível.

— personagens —

Duque de Kent (Príncipe Edward)

Grão-Mestre da United Grand Lodge of England há mais de 50 anos

— fontes —

  • Inside the Freemasons — Documentário Sky 1 (2017)
  • Tercentenary of the Premier Grand Lodge of England — United Grand Lodge of England (2017)
  • 300 Anos da Maçonaria Moderna: Celebrações no Brasil — Grande Oriente do Brasil / CMSB / COMAB (publicações institucionais, 2017)