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Estado Novo: Vigilância e Resistência
Em 10 de novembro de 1937, Getúlio Vargas instaurou o Estado Novo e a Maçonaria brasileira entrou em modo de sobrevivência — reduzindo sua visibilidade pública enquanto algumas lojas se tornavam, discretamente, ilhas de resistência liberal num oceano autoritário.
Na noite de 10 de novembro de 1937, Getúlio Vargas transmitiu ao rádio o texto da nova Constituição e decretou o fechamento do Congresso Nacional. O Estado Novo havia começado. Sem tiro, sem resistência visível — só a voz grave do gaúcho lendo o que havia planejado há meses. O Brasil acordou no dia seguinte com uma ditadura de inspiração corporativista que duraria oito anos.
Para a Maçonaria brasileira, a data não foi o começo de uma crise, mas o agravamento de uma tensão que já existia. Desde o golpe de 1930 que levara Vargas ao poder, as associações voluntárias não controladas pelo Estado viviam sob suspeita. O novo regime, que admirava abertamente modelos europeus autoritários — sem necessariamente reproduzir sua violência mais extrema —, desconfiava de qualquer organização que tivesse ritos próprios, hierarquia interna e reuniões a portas fechadas.
O DOPS e as lojas
O Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) era o instrumento de vigilância do regime. Seu chefe no Rio, Filinto Müller — figura sinistra, ex-oficial formado em parte por influências nazistas durante viagem à Europa —, mantinha agentes em todo tipo de associação suspeita. As lojas maçônicas não escapavam dessa atenção.
A infiltração não era sistematicamente violenta: o objetivo era monitorar, identificar lideranças, mapear redes. Diferentemente do que ocorria na Alemanha, na Itália ou na Espanha, o Estado Novo varguista não decretou a dissolução das lojas nem prendeu maçons em massa. A Maçonaria brasileira funcionou ao longo de todo o período — mas com a consciência constante de que havia olhos de fora.
A resposta das obediências foi o baixo perfil. O Grande Oriente do Brasil, presidido por Mário Behring e depois por Octacilio Negrão de Lima, manteve-se ativo mas reduziu drasticamente suas manifestações públicas. Atividades filantrópicas continuaram; discursos políticos, não. Era a estratégia de sobrevivência de uma instituição que havia aprendido, ao longo de mais de um século de história brasileira, a dobrar sem quebrar.
A loja como ilha
Para além da sobrevivência institucional, há um aspecto menos documentado mas historicamente plausível: algumas lojas tornaram-se espaços de diálogo que o regime não conseguia facilmente reproduzir. O avental e o grau maçônico criavam uma zona de confiança que transcendia as divisões políticas do mundo externo. Dentro de certas lojas, liberais, católicos antifascistas e figuras de diversas orientações podiam conversar sem as consequências que o mesmo debate teria na rua ou na imprensa.
Em tempos sombrios, a loja torna-se ilha — onde a luz não se apaga porque não há ninguém de fora vendo.
Isso não significa que a Maçonaria foi um núcleo organizado de resistência ao varguismo. Não foi. Muitos maçons eram simpatizantes do regime; alguns eram funcionários de confiança do Estado. A Maçonaria brasileira nunca teve unidade política, e o Estado Novo não foi exceção. O que existiu foi uma tensão estrutural: entre um regime que queria controlar todas as associações e uma instituição que, por natureza, organizava lealdades fora do alcance do Estado.
O contraste internacional
A dimensão do que a Maçonaria brasileira não sofreu só se revela quando se olha para fora. Em 1935, Hitler havia decretado a dissolução de todas as lojas maçônicas alemãs e a prisão de seus dirigentes — muitos dos quais foram enviados a campos de concentração, onde eram obrigados a usar um triângulo invertido rosa ou vermelho como sinal de identificação. Mussolini fizera o mesmo na Itália desde 1925. Francisco Franco, após a vitória na Guerra Civil Espanhola em 1939, tratou a Maçonaria como inimiga da pátria: centenas de maçons espanhóis foram fuzilados ou encarcerados.
Nesse contexto internacional, a relativa tolerância do Estado Novo era, objetivamente, uma exceção. Vargas não amava a Maçonaria — mas tampouco a temia o suficiente para destruí-la. A vigia era permanente; a perseguição sistemática, não.
O fim do Estado Novo e a reabertura
Quando Vargas foi deposto em outubro de 1945, pressionado pelas mesmas forças armadas que o haviam sustentado, a Maçonaria brasileira saiu do período com suas estruturas intactas. O GOB retomou sua voz pública. As Grandes Lojas estaduais, que haviam se multiplicado desde 1927, reiniciaram suas atividades sem as restrições informais que o regime impunha. Em alguns estados, os anos seguintes foram de expansão notável — como se a energia represada pelos oito anos de Estado Novo encontrasse, finalmente, espaço para fluir.
O legado político do período para a Maçonaria brasileira é ambíguo: nenhuma vítima emblemática, nenhuma loja-mártir — mas também nenhum enfrentamento corajoso que pudesse ser lembrado como resistência. A sobrevivência foi discreta porque a prudência era a única estratégia viável. E a prudência, nesse caso, preservou a instituição.
— personagens —
Getúlio Vargas
Presidente e ditador, instaurador do Estado Novo (1937–1945)
Filinto Müller
Chefe de polícia do Rio de Janeiro, responsável pelo DOPS durante o Estado Novo
Mário Behring
Grão-Mestre do GOB no início do período, articulador da postura de baixo perfil
Octacilio Negrão de Lima
Grão-Mestre do GOB após Behring, político mineiro
— fontes —
- Getúlio Vargas: Uma Biografia Política — Lira Neto
- A Maçonaria no Brasil: Uma Perspectiva Histórica — Cláudio Oliveira Ribeiro
- O Estado Novo (1937–1945) — Angela de Castro Gomes