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O Surgimento das Grandes Lojas Estaduais
Em 17 de junho de 1927, lojas paulistas dissidentes do Grande Oriente do Brasil fundam a Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo — abrindo caminho para o modelo federativo que ainda organiza a Maçonaria brasileira.
Em 17 de junho de 1927, na cidade de São Paulo, um grupo de lojas dissidentes rompeu com o Grande Oriente do Brasil e fundou a Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo (GLESP). A data não foi escolhida ao acaso. O ano, também não. O que ocorreu naquele inverno paulistano foi menos uma ruptura emocional do que uma decisão racional: o modelo centralizado no Rio de Janeiro havia se tornado insustentável para as lojas que praticavam ritos distintos e carregavam identidades regionais próprias.
O Grande Oriente do Brasil, fundado em 1822 com a bênção do próprio D. Pedro I, havia governado a Maçonaria brasileira por mais de um século com autoridade quase monárquica. Sediado no Rio de Janeiro — capital da nação até 1960 —, o GOB congregava lojas que praticavam o Rito Escocês Antigo e Aceito, o Rito de York, o Rito Adonhiramita e o Rito Brasileiro. Essa convivência de ritos distintos sob uma única administração criava tensões constantes: disputas sobre quais práticas eram “regulares”, quais oficinas mereciam mais voz nas decisões e quem, afinal, tinha legitimidade para arbitrar sobre matéria ritual.
A questão dos ritos e a questão do poder
O problema não era apenas cerimonial. O debate sobre ritos encobria uma tensão mais profunda: quem manda. Para as lojas de estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul — economicamente dinâmicos, politicamente assertivos no contexto da República Velha —, submeter-se às decisões de uma direção centralizada no Rio era cada vez mais difícil de justificar. O federalismo que estruturava a política brasileira desde 1889 tardava a chegar à Maçonaria.
A solução que emergiu em 1927 foi o modelo da Grande Loja Estadual: uma obediência autônoma, soberana em seu território, sem subordinação ao GOB. O modelo já existia na maior parte dos países anglófonos — os Estados Unidos, por exemplo, têm uma Grande Loja por estado, sem nenhuma federação nacional. Para os articuladores paulistas, era uma questão de coerência: se a república era federativa, por que a Maçonaria seria centralizada?
A fundação da GLESP e o efeito dominó
A fundação da GLESP em São Paulo funcionou como gatilho. Em semanas, o estado de Minas Gerais seguiu o mesmo caminho. Nos anos seguintes, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e outras unidades federativas formaram suas próprias Grandes Lojas. Cada uma delas declarava autonomia em relação ao GOB, reconhecia-se mutuamente e buscava reconhecimento junto às Grandes Lojas anglófonas — notadamente a United Grand Lodge of England (UGLE), árbitro informal de “regularidade” no mundo maçônico.
A Maçonaria não é monopólio — é fraternidade. E onde há fraternidade, deve haver liberdade de organização.
O GOB não desapareceu. Ao contrário — manteve-se ativo, continuou a crescer, e até hoje é uma das maiores obediências maçônicas do hemisfério sul. O que mudou foi sua posição: de única autoridade nacional, passou a ser uma entre várias organizações paralelas. A hegemonia de cem anos havia terminado.
A CMSB: federando as Grandes Lojas
As Grandes Lojas estaduais fundadas a partir de 1927 precisavam de um fórum comum. Ao longo das décadas seguintes, elas foram gradualmente se articulando até formar a CMSB — Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil, federação que as congrega sem exercer autoridade sobre elas. A CMSB é, nesse sentido, uma confederação no sentido estrito: as soberanias estaduais permanecem intactas; a federação existe para coordenar e representar, não para dirigir.
Octacilio Negrão de Lima, político mineiro e maçom ativo, foi uma das figuras de articulação desse processo. Também ele havia vivenciado a tensão entre a identidade regional e a gestão centralizada do GOB — e entendia que o futuro da Maçonaria no Brasil passaria necessariamente por uma estrutura que respeitasse a diversidade do país.
Um Brasil maçônico plural
O que o movimento de 1927 inaugurou não foi apenas uma nova organização — foi um modelo. O Brasil maçônico do século XX e do século XXI é um mosaico: GOB de um lado, Grandes Lojas estaduais de outro, e mais tarde a COMAB completando o quadro. Nenhuma dessas federações reconhece plena e universalmente as demais. As fronteiras de “regularidade” são negociadas, disputadas e redesenhadas conforme as circunstâncias.
Para o irmão que bate à porta de uma loja brasileira hoje, esse mosaico pode ser fonte de confusão. Para o historiador, é o espelho fiel de um país que nunca conseguiu — nem quis — ser governado por uma única cabeça.
— personagens —
Mario Behring
Articulador principal da GLESP e figura central do GOB no período
Octacilio Negrão de Lima
Político mineiro, futuro presidente da CMSB
Antônio Carlos Ribeiro de Andrada
Jurista e político mineiro, apoiador da autonomia regional
— fontes —
- História do Grande Oriente do Brasil — Kennyo Ismail
- A Maçonaria no Brasil: Uma Perspectiva Histórica — Cláudio Oliveira Ribeiro
- Maçonaria Brasileira: Origens, Estrutura e Influência — Célio Garcia