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A Proclamação da República

Em 15 de novembro de 1889, militares positivistas, republicanos civis e maçons articulam a queda da monarquia. O Marechal Deodoro hesitou até o último momento — e o povo, segundo Aristides Lobo, assistiu "bestializado".

data15 de novembro de 1889 localRio de Janeiro

N a manhã de 15 de novembro de 1889, o Marechal Deodoro da Fonseca saiu de casa no Rio de Janeiro sem ter certeza se derrubaria um gabinete ou uma monarquia. Essa distinção — que para a maioria dos brasileiros que assistiam à cena pela janela devia parecer irrelevante — era, para os participantes, fundamental. O que aconteceu naquele dia foi menos uma revolução planejada do que um movimento que ganhou velocidade própria, puxado por homens que queriam coisas diferentes e usaram uns aos outros para chegar onde foram.

O Manifesto Republicano de 1870 havia dado ao movimento sua primeira formulação pública. Assinado por Quintino Bocaiúva, Saldanha Marinho e Aristides Lobo — todos maçons — o documento argumentava que o Brasil era incompatível com a monarquia hereditária e que a república federativa era o único regime adequado a um país continental e diverso. Dezenove anos entre o manifesto e o ato: a República brasileira foi uma longa gravidez.

Os três grupos que convergiram no 15 de novembro tinham projetos distintos. Os militares — Deodoro à frente — estavam ressentidos com o Império desde a Guerra do Paraguai (1864–1870), em que o Exército havia sofrido perdas enormes e voltado ao Brasil com a sensação de que a classe política não entendia nem valorizava o que eles haviam feito. A Questão Militar dos anos 1880, uma série de conflitos entre oficiais e o gabinete do Visconde de Ouro Preto, azedara definitivamente a relação. Deodoro queria derrubar Ouro Preto; a República era um subproduto dessa inimizade pessoal.

Os republicanos civis — Bocaiúva, Aristides Lobo, os clubes republicanos espalhados por São Paulo e Rio — queriam o regime, a bandeira, o projeto. Eram, em grande parte, maçons de longa data que haviam politizado progressivamente sua visão de mundo dentro das lojas e nas redações de jornais. Queriam uma república federativa ao modelo americano — e ficaram, em muitos casos, decepcionados com o que veio depois.

Os positivistas eram o terceiro grupo, e o mais ideologicamente coerente. Benjamin Constant Botelho de Magalhães, professor de matemática e astronomia na Escola Militar, havia formado toda uma geração de oficiais no pensamento de Auguste Comte — a ideia de que a humanidade evolui em etapas (teológica, metafísica, positiva) e que a ciência, não a religião ou a metafísica, devia guiar os governos. Benjamin Constant era maçom e positivista; para ele, as duas filiações apontavam na mesma direção: razão, ordem, progresso.

O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava.

— Aristides Lobo, 'Diário Popular', novembro de 1889

A frase de Aristides Lobo — um dos fundadores do movimento republicano — dita dias depois da proclamação para um jornal de São Paulo, é talvez o autorretrato mais honesto de uma revolução. O povo do Rio de Janeiro, que nas décadas anteriores havia ido às ruas pelo Fico, pela Abdicação, pela abolição — esse povo que sabia quando algo o afetava diretamente — ficou na calçada olhando para os cavalos e os canhões sem saber o que festejar. A República havia chegado sem que ninguém a pedisse em voz alta, exceto uma minoria articulada que se movia nas redes dos clubes, das lojas e dos quartéis.

Deodoro, ao final daquela manhã, havia feito mais do que pretendia. Em 24 horas, Pedro II era deposto e embarcava para o exílio na Europa — com dignidade, sem resistência, com a melancolia de um homem que havia governado por quarenta e nove anos e nunca imaginou que terminaria assim. Rui Barbosa tornava-se ministro da Fazenda, o homem que tentaria reformar o sistema financeiro com o Encilhamento — e produziria uma das maiores crises especulativas da história brasileira. Bocaiúva tornava-se ministro das Relações Exteriores.

Joaquim Nabuco, o maior líder intelectual do abolicionismo, recusou a República: era monarquista convicto, acreditava que Pedro II havia sido um freio à barbárie nas relações entre senhores e escravos, e que a República seria dominada pelas oligarquias rurais. Tinha razão sobre isso último. Nabuco era maçom, abolicionista, monarquista — e a Maçonaria continha os três sem contradição formal, porque a fraternidade ritual nunca exigiu uniformidade política, apenas a forma do avental e a aceitação do rito.

A monarquia que havia nascido em grande parte da articulação maçônica — com Bonifácio, Ledo, D. Pedro I — morreu também com a participação decisiva de homens de avental. O Grande Oriente do Brasil não emitiu nenhuma nota oficial sobre a mudança de regime. Não precisava. Os homens que proclamaram a República já sabiam onde se encontrar.

— personagens —

Marechal Deodoro da Fonseca

Proclamador da República, maçom, primeiro presidente

Benjamin Constant Botelho de Magalhães

Ideólogo positivista, professor da Escola Militar, maçom

Quintino Bocaiúva

Líder civil republicano, jornalista, maçom, co-autor do Manifesto de 1870

Aristides Lobo

Político republicano, autor da frase "o povo assistiu bestializado"

Rui Barbosa

Jurista, maçom, primeiro ministro da Fazenda da República

— fontes —

  • Os Bestializados — O Rio de Janeiro e a República que não foi — José Murilo de Carvalho
  • A Formação das Almas — José Murilo de Carvalho
  • Ordem e Progresso — Gilberto Freyre
  • História do Grande Oriente do Brasil — Kennyo Ismail