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A Reunificação Parcial das Obediências

Após nove anos de cisma, o Visconde do Rio Branco — primeiro-ministro do Império e autor da Lei do Ventre Livre — articula a reunificação parcial das obediências maçônicas brasileiras, justo quando a Questão Religiosa colocava a Maçonaria em rota de colisão com a Igreja Católica.

localRio de Janeiro, Brasil

N em toda reunificação é vitória. Às vezes, é simplesmente a consciência de que o inimigo externo cresceu demais para que a briga interna continue sendo um luxo. Em 1872, o Grande Oriente do Brasil — partido em dois desde o cisma de 1863 — se reunificou sob a liderança do Visconde do Rio Branco, e a reunificação dizia tanto sobre o que acontecia dentro das lojas quanto sobre o que acontecia fora delas.

José Maria da Silva Paranhos, Visconde do Rio Branco, era, em 1872, o homem mais poderoso do Império fora do próprio Pedro II. Presidente do Conselho de Ministros desde 1871, foi ele quem conduziu a aprovação da Lei do Ventre Livre em setembro daquele ano — a lei que declarava livres todos os filhos de escravas nascidos a partir daquela data, o primeiro passo legislativo concreto em direção à abolição. Era conservador de método, não de princípios: acreditava que as grandes transformações deviam ser feitas pelo Estado, com ordem, sem convulsões. Aplicou essa mesma lógica à Maçonaria.

A reunificação de 1872 não foi uma reconciliação sentimental entre irmãos que haviam brigado. Foi uma operação política, negociada com a frieza pragmática que Rio Branco aplicava a tudo. As duas obediências cismadas — o GOB do Lavradio (liberal, abolicionista, liderado por Saldanha Marinho) e o GOB dos Beneditinos (conservador, sob a liderança de Paranhos) — concordaram em fundir-se num único Grande Oriente do Brasil, com Rio Branco como Grão-Mestre. Algumas lojas ficaram fora do acordo. As feridas mais antigas não foram mencionadas. O novo começo era, em parte, convenção.

Que a Maçonaria sirva ao Brasil acima de qualquer obediência interna — uma só pátria, uma só fraternidade.

— Visconde do Rio Branco (paráfrase atribuída)

A urgência da reunificação tinha um catalisador externo claro: a Questão Religiosa. Em 1872, o bispo de Olinda, Dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira, e depois o bispo do Pará, Dom Antônio Macedo Costa, começaram a cumprir determinações vaticanas que exigiam a expulsão de membros maçons das irmandades religiosas católicas — confrarias leigas que administravam hospitais, cemitérios e festas religiosas por todo o Brasil. O papa Pio IX havia condenado a Maçonaria na bula Quanta Cura (1864) e no Syllabus Errorum do mesmo ano; os bispos brasileiros, pressionados por Roma, resolveram finalmente executar essas determinações.

O problema era que o Império brasileiro operava sob o sistema do padroado régio: o Imperador tinha controle sobre as nomeações eclesiásticas e sobre a promulgação de bulas e decretos papais em território brasileiro. As ordens dos bispos contrariavam o padroado ao aplicar diretamente decisões de Roma sem aprovação imperial. Rio Branco, como presidente do Conselho, respondeu com dureza: os bispos foram processados e condenados a quatro anos de prisão com trabalhos forçados em 1874 — pena depois comutada por Pedro II para prisão simples e em seguida anistiados em 1875.

O episódio foi um terremoto silencioso. Parte do clero católico, que até então sustentava a monarquia como ordem providencial, passou a ver o Império com desconfiança crescente. Quando a República viesse em 1889, uma fatia do clero não choraria pela monarquia que havia prendido seus bispos.

A figura de Quintino Bocaiúva, jornalista e maçom que circulava pelos mesmos espaços que Rio Branco embora pensasse politicamente em direção oposta, ilustra a riqueza contraditória do momento. Em 1870, Bocaiúva havia assinado o Manifesto Republicano — o documento fundador do movimento que derrubaria a monarquia dezenove anos depois. Em 1872, enquanto Rio Branco reunificava a Maçonaria imperial, Bocaiúva já trabalhava para construir a alternativa ao Império. Dois maçons, uma obediência, projetos incompatíveis de futuro.

A reunificação de 1872 deu ao GOB uma fachada de unidade que durou, com altos e baixos, até o fim do Império. Mas Saldanha Marinho, que havia aceitado o acordo por conveniência, voltou a se distanciar da liderança formal à medida que as contradições políticas entre ele e Rio Branco tornaram-se insustentáveis. A Maçonaria brasileira seguiu sendo, como sempre fora, um espaço de convergência que continha, mal ou bem, homens que queriam coisas muito diferentes para o mesmo país.

— personagens —

Visconde do Rio Branco (José Maria da Silva Paranhos)

Grão-Mestre do GOB reunificado, presidente do Conselho de Ministros

Joaquim Saldanha Marinho

Líder do Lavradio, que aceita a reunificação mas depois se distancia novamente

Quintino Bocaiúva

Jornalista, maçom, futuro líder republicano

— fontes —

  • História do Grande Oriente do Brasil — Kennyo Ismail
  • A Questão Religiosa no Brasil — Roque Spencer Maciel de Barros
  • O Visconde do Rio Branco e a Lei do Ventre Livre — José Murilo de Carvalho