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O Cisma Beneditinos × Lavradio
Em 1863, o GOB racha em dois Grandes Orientes rivais — Lavradio e Beneditinos. Por trás da disputa de ritos e lideranças, estavam o abolicionismo, a política imperial e a velha tensão entre liberais e conservadores.
T oda ordem baseada em fraternidade universal carrega em si o germe do cisma. Em 1863, o Grande Oriente do Brasil — que havia se reorganizado após a reabertura de 1831 e acumulado membros influentes por três décadas — chegou ao seu ponto de maior fratura do século XIX. O que começou como uma disputa sobre liderança e rito terminou revelando as linhas de falha mais profundas da sociedade imperial: escravidão, política partidária e a velha batalha entre quem queria um Brasil diferente e quem queria preservar o que existia.
A disputa formal girava em torno de questões de rito e legitimidade institucional. O Rito Adonhiramita — de origem francesa, popular no Brasil desde o início do século — disputava espaço com o Rito Escocês Antigo e Aceito, de prestígio crescente. Mas ritos eram, naquele contexto, apenas a embalagem. O conteúdo real era político: quem controlava o GOB controlava uma rede de influência que alcançava o Parlamento, os ministérios, o Exército e a imprensa.
A ruptura produziu dois Grandes Orientes paralelos, cada um reclamando legitimidade exclusiva sobre a Maçonaria brasileira. O GOB do Lavradio — sediado na sede histórica na Rua do Lavradio, no centro do Rio — ficou sob a liderança de Joaquim Saldanha Marinho, advogado, jornalista, político liberal e abolicionista convicto. O GOB dos Beneditinos — nome que vinha do Mosteiro de São Bento, onde se instalou provisoriamente — congregou a ala conservadora, com José Maria da Silva Paranhos (futuro Visconde do Rio Branco) como figura central.
Não há liberdade para a Maçonaria onde a senzala existe — antes de discutir grau, discutamos liberdade.
A diferença entre os dois homens era, por si só, um retrato do Império. Saldanha Marinho era filho do Nordeste, formado em Olinda, jornalista panfletário que usava a imprensa como arma política — e que acreditava que a Maçonaria tinha obrigação moral de posicionar-se contra a escravidão. Paranhos era um fluminense de origem modesta que escalou a estrutura do Partido Conservador com disciplina e inteligência notáveis: deputado, senador, presidente do Conselho de Ministros por duas vezes. Na Maçonaria, como na política, preferia a negociação à ruptura — exceto quando a ruptura era o movimento estratégico correto.
O cisma refletia, com precisão quase algébrica, a divisão entre Liberais e Conservadores no sistema político do Segundo Reinado. O Partido Liberal e o Partido Conservador alternavam-se no poder por decisão do próprio Pedro II — o chamado sistema do parlamentarismo às avessas, em que o Imperador escolhia o presidente do Conselho e depois o Parlamento se reorganizava em torno dele. Nas lojas, como no Parlamento, os dois grupos coexistiam sob o mesmo teto ritual — mas cada vez menos à vontade.
A questão abolicionista era o divisor mais agudo. Em 1863, a escravidão ainda estava longe de seu fim legal: faltariam vinte e cinco anos para a Lei Áurea. Mas o debate já era intenso nos centros urbanos, e as lojas maçônicas eram um dos poucos espaços onde homens livres de diferentes origens e posições discutiam abertamente o futuro do país. Saldanha Marinho transformou o Lavradio num polo de articulação abolicionista — lojas cotizando-se para comprar cartas de alforria, jornalistas maçons denunciando o tráfico interno, advogados-irmãos atuando em causas de liberdade.
Os Beneditinos, liderados por Paranhos, não eram necessariamente pró-escravidão — o próprio Rio Branco seria, em 1871, o autor da Lei do Ventre Livre. Mas representavam uma visão de que a mudança devia vir pelo alto, por reformas graduais conduzidas pelo Estado, não por agitação das lojas. Essa diferença de método e ritmo, somada às rivalidades pessoais e às disputas de cargo, manteve o cisma vivo por quase uma década.
O conflito só seria resolvido — e apenas parcialmente — em 1872, quando as pressões externas da Questão Religiosa forçaram uma reunificação de conveniência. Mas as feridas não fecharam completamente. Algumas lojas ficaram fora do acordo. Algumas desconfianças pessoais jamais foram curadas dentro dos rituais de fraternidade que, afinal, eram o propósito declarado de toda aquela estrutura.
— personagens —
Joaquim Saldanha Marinho
Líder do GOB do Lavradio, abolicionista, liberal
Visconde do Rio Branco (José Maria da Silva Paranhos)
Líder do GOB dos Beneditinos, conservador, futuro presidente do Conselho
Albino José Barbosa de Oliveira
Jurista envolvido na disputa, magistrado e maçom
— fontes —
- História do Grande Oriente do Brasil — Kennyo Ismail
- A Questão Religiosa no Brasil — Roque Spencer Maciel de Barros
- Saldanha Marinho — Vida e Obra — Múltiplos autores (org. Arquivo Nacional)