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A Reabertura do GOB após a Abdicação

Com a abdicação de D. Pedro I, a Maçonaria brasileira — suspensa desde 1822 — reabre suas portas. José Bonifácio volta do exílio, torna-se tutor do imperador-menino e testemunha um país tentando se governar sem o centro de gravidade que ajudara a criar.

data07 de abril de 1831 localRio de Janeiro

N a manhã de 7 de abril de 1831, D. Pedro I assinou a sua própria abdicação no Paço de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Tinha trinta e dois anos. Deixava para trás um filho de cinco, Pedro de Alcântara — o futuro Pedro II — e uma nação de dois milhões de almas livres e um milhão e trezentos mil escravizados, ainda sem saber muito bem o que fazer consigo mesma. A multidão que horas antes havia pedido a sua saída pelas ruas do Rio assistiu à notícia com uma mistura de alívio e vertigem. Quem governaria agora?

A resposta institucional foi a Regência Trina Provisória, depois substituída pela Regência Una. A resposta política real foi: os grupos que articulavam o Brasil por dentro das lojas maçônicas. O Grande Oriente do Brasil, suspenso desde outubro de 1822 — quando o próprio D. Pedro I mandara fechar as lojas, temeroso de conspirações republicanas — reabre suas atividades formalmente. Quase uma década de silêncio institucional termina no mesmo dia em que o Império muda de mãos.

O retorno mais simbólico é o de José Bonifácio de Andrada e Silva. Exilado em Bordeaux desde 1824, após a dissolução da Assembleia Constituinte e sua ruptura definitiva com D. Pedro I, o Patriarca da Independência desembarca no Rio em 1829 — dois anos antes da abdicação — ainda vigiado de perto pela polícia imperial. Com a saída do Imperador, Bonifácio emerge como a figura de autoridade natural para o delicado papel de tutor do imperador-menino. É nomeado oficialmente em 1831. Um homem de setenta anos, geólogo de formação europeia, maçom da geração dos iluministas, torna-se o primeiro mestre do menino que governaria o Brasil pelos quarenta anos seguintes.

Quem ensina um menino príncipe ensina um povo — que aprenda primeiro a obedecer à razão antes de mandar nos homens.

— José Bonifácio de Andrada e Silva (paráfrase atribuída)

O período regencial que se abre em 1831 é, do ponto de vista maçônico, um paradoxo fascinante. A Maçonaria reabre e recebe novos membros: magistrados, militares, padres regalistas, jornalistas e políticos que oscilam entre projetos federalistas, centralistas, liberais e conservadores. O avental nivela, mas não unifica. Nas mesmas semanas em que irmãos de loja debatem a reorganização do Império, outras regiões do Brasil explodem em revoltas — a Cabanagem no Pará (1835), a Balaiada no Maranhão (1838), a Farroupilha no Sul (1835–1845), a Sabinada na Bahia (1837).

Em algumas dessas revoltas, maçons estavam entre os líderes. Em outras, maçons estavam entre os que mandavam as tropas para suprimi-las. A Maçonaria brasileira do período regencial não tinha posição política unificada — era, antes, um tecido de relações que atravessava facções rivais. O que ela oferecia era rede, linguagem comum e confiança suficiente para a negociação política informal em meio ao caos institucional.

Padre Diogo Antônio Feijó, regente entre 1835 e 1837, é figura emblemática dessa ambiguidade: padre celibatário, regalista convicto (defendia o celibato opcional para o clero), liberal e maçom — uma combinação que escandalizava a hierarquia católica e incomodava os conservadores. Sua regência foi marcada por tentativas de centralização que esbarraram nas próprias divisões que a Maçonaria espelhava.

Bernardo Pereira de Vasconcelos percorre o arco oposto: começa o período regencial como liberal, termina como um dos fundadores do partido Conservador — o que deu origem à famosa máxima que lhe é atribuída, “me tornei reacionário porque a ordem era liberal e agora a ordem é a reação”. Também ele frequentava os círculos maçônicos, onde conversadores e progressistas trocavam aperto de mão e, em seguida, iam ao Parlamento votar em lados opostos.

José Bonifácio não chegaria a ver o desfecho do período regencial. Morreu em abril de 1838, sete anos depois de ter assumido a tutoria do imperador-menino. Não viu a maioridade antecipada de Pedro II em 1840, nem a estabilização do Segundo Reinado que ele, mais do que qualquer outro, havia tornado possível ao fundar o projeto de nação que sobreviveu à tempestade regencial. Viu o começo, não o resultado.

— personagens —

José Bonifácio de Andrada e Silva

Retornado do exílio, tutor de Pedro II, patriarca da Independência

Padre Diogo Antônio Feijó

Regente do Brasil (1835–1837), líder do Partido Liberal

Bernardo Pereira de Vasconcelos

Jurista e político, figura central do período regencial

— fontes —

  • História do Grande Oriente do Brasil — Kennyo Ismail
  • O Período Regencial — 1831–1840 — Marcello Basile
  • José Bonifácio de Andrada e Silva — O Patriarca da Independência — Carlos Guilherme Mota