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A Suspensão da Maçonaria por D. Pedro I
Vinte dias após ser eleito Grão-Mestre, D. Pedro I assina decreto suspendendo todas as atividades maçônicas no Império — exilando os liberais e encerrando abruptamente o ciclo que havia começado em 1797.
imagem: Placeholder — substituir por retrato de D. Pedro I ou cena da política imperial de 1822.
25 de outubro de 1822. Vinte dias após ser eleito Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil, D. Pedro I assinou um decreto suspendendo todas as atividades maçônicas em todo o Império.
A Maçonaria que havia construído a Independência era silenciada por seu próprio Imperador-Grão-Mestre.
O decreto e suas causas
Os historiadores debatem as causas precisas — e é provável que todas tenham contribuído simultaneamente:
A pressão da facção bonifaciana. Bonifácio e seus aliados haviam passado semanas alertando D. Pedro de que Ledo e os ledistas tramavam contra a monarquia, conspirando em favor de uma república ou de um poder legislativo forte demais. As acusações eram politicamente motivadas, mas encontraram ouvidos receptivos num imperador desconfiante.
A pressão conservadora e religiosa. A Santa Sé nunca havia aceitado a Maçonaria. Conselheiros eclesiásticos e aristocratas chegados de Portugal reforçavam que a irmandade era uma ameaça à ordem. Para Pedro, que precisava de legitimidade internacional para seu novo Império, antagonizar a Igreja era um risco desnecessário.
O temperamento de Pedro. Impulsivo, centralizador por natureza, D. Pedro I desconfiava de qualquer organização que pudesse funcionar como contra-poder. Um GOB ativo, com facções em disputa, debates constituintes e canais de influência sobre a opinião pública, era precisamente o tipo de coisa que o incomodava.
Por motivos de ordem pública e segurança do Estado, ficam suspensas as atividades maçônicas em todo o Império, até que outra coisa se determine.
Os exilados
Joaquim Gonçalves Ledo e José Clemente Pereira foram desterrados — exilados do Brasil por ordem imperial. Ledo, que havia sido Grande Secretário do GOB, articulador da Independência e um dos homens mais influentes do Rio em 1822, saiu do país em semanas.
A ironia era pesada: os homens que haviam convencido D. Pedro a ficar no Brasil em janeiro de 1822, que haviam fundado o GOB com ele, que haviam organizado a logística política da Independência — eram agora tratados como inimigos do Estado.
A trajetória de Bonifácio
José Bonifácio, que havia articulado a suspensão, julgava ter saído vitorioso. Enganou-se. Em julho de 1823, Pedro dissolveu a Assembleia Constituinte (a “Noite da Agonia”) e demitiu Bonifácio do Ministério. O Patriarca da Independência foi também exilado, passando anos em Bordéus.
A Maçonaria havia construído a Independência. O Imperador havia desmontado a Maçonaria. E então desmontou também seus próprios construtores.
As lojas na clandestinidade
O decreto de outubro de 1822 não eliminou a Maçonaria — apenas a empurrou de volta à clandestinidade, ao estado em que havia existido antes de 1820. Lojas continuaram a se reunir informalmente, em casas particulares, com cautela redobrada. Não havia Grande Oriente oficial funcionando, mas as redes de relações persistiram.
Só após a abdicação de D. Pedro I em 7 de abril de 1831 o GOB foi formalmente reativado. A Maçonaria brasileira ressurgiu, e o primeiro ato simbólico da nova era foi precisamente desfazer o que o imperador havia feito: reabrir as portas.
O paradoxo final
D. Pedro I, após abdicar do trono do Brasil, seguiu para Portugal, onde retomou o contato com lojas maçônicas portuguesas. O homem que havia perseguido a Maçonaria no Brasil tornou-se, no exílio, figura frequente em lojas europeias. A relação com a irmandade foi, do início ao fim, marcada pela ambiguidade: maçom de juramento, perseguidor de fato, frequentador no exílio.
Sabia que… A relação tortuosa de Pedro I com a Maçonaria não terminou com o Brasil. Após abdicar em 1831 e partir para a Europa, ele voltou a frequentar lojas portuguesas — tornando-se uma figura histórica singular: o único homem que foi, ao mesmo tempo, Grão-Mestre de uma obediência maçônica e seu próprio perseguidor.
— personagens —
D. Pedro I
Imperador que assinou o decreto de suspensão
José Bonifácio de Andrada e Silva
Articulador da suspensão — e sua futura vítima em 1823
Joaquim Gonçalves Ledo
Exilado após a suspensão
José Clemente Pereira
Exilado após a suspensão
— fontes —
- História do Grande Oriente do Brasil — Kennyo Ismail
- D. Pedro I — Um Herói sem Nenhum Caráter — Paulo Rezzutti
- O Tempo Saquarema — Ilmar Rohloff de Mattos