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A Reabertura das Lojas após a Perseguição Joanina

A Revolução Liberal do Porto em 1820 muda o clima político do Império Português — e as lojas maçônicas brasileiras, silenciadas desde 1818, reabrem com novos propósitos e novos líderes.

localRio de Janeiro, Recife, Salvador

imagem: Placeholder — substituir por ilustração da Revolução do Porto ou cena política brasileira de 1820-21.

Em agosto de 1820, militares liberais e burgueses do Porto deram início ao movimento que ficaria conhecido como a Revolução Liberal do Porto. A exigência era clara: uma constituição para Portugal. D. João VI, instalado no Rio de Janeiro havia doze anos, viu-se encurralado entre a pressão de Lisboa e a complexidade de governar um Império com capital americana.

O efeito no Brasil foi imediato e profundo — inclusive para a Maçonaria.

O fim do gelo joanino

Em 1818, D. João VI havia proibido formalmente as atividades maçônicas no Brasil por alvará régio. A medida se seguiu ao trauma da Revolução Pernambucana de 1817, que havia revelado ao monarca a permeabilidade entre as lojas e a agitação política. Sob a proibição, as lojas do Rio, de Recife e de Salvador fecharam suas portas formais — mas continuaram a existir informalmente, em encontros menores, em casas particulares.

A Revolução do Porto mudou o cálculo. Em Portugal, a Maçonaria havia sido um dos motores intelectuais do constitucionalismo. Proibir as lojas no Brasil enquanto o movimento constitucional triunfava em Lisboa seria uma contradição impossível de sustentar.

Reabertura e reorganização

Ao longo de 1820 e 1821, as lojas brasileiras se reorganizaram com vigor renovado. No Rio, na Bahia e em Pernambuco, velhos membros voltaram às reuniões e novos candidatos apareceram. O debate que antes precisava ser cifrado agora ocorria com relativa abertura: qual seria o lugar do Brasil no novo mundo constitucional?

Que o Brasil aprenda a se reger antes que o forcem a obedecer.

— José Bonifácio de Andrada e Silva (paráfrase)

Os novos protagonistas

Três figuras emergem nesse momento como centrais para o que viria a seguir:

José Bonifácio de Andrada e Silva havia passado décadas na Europa como geólogo e administrador público português. Retornou ao Brasil em 1819, carregando prestígio científico internacional, redes diplomáticas e uma visão clara de que a monarquia constitucional era o único caminho viável para o Brasil. Entraria para a Maçonaria e se tornaria o articulador conservador da Independência.

Joaquim Gonçalves Ledo era o contraponto: jornalista combativo, defensor de uma constituinte de base mais popular, conectado às camadas médias urbanas do Rio. Era o rosto liberal das lojas cariocas.

José Clemente Pereira completava o triângulo: juiz de formação, político de vocação, moderado por temperamento — seria ele a organizar a petição popular que levou ao “Fico” em janeiro de 1822.

O Rio sem D. João

Em abril de 1821, D. João VI embarcou de volta a Lisboa, deixando seu filho Pedro como Príncipe Regente do Brasil. Era uma situação inédita: um país de dimensões continentais, governado por um jovem de vinte e três anos, rodeado por uma elite em efervescência. As lojas maçônicas eram, naquele momento, o principal espaço de articulação política da elite brasileira — e estava prestes a dar à Independência sua estrutura organizacional.


Sabia que… Hipólito da Costa, que havia sido exilado em 1805 por ser maçom, foi nomeado em 1821 Encarregado de Negócios em Londres pelo próprio governo que o havia perseguido — sinal concreto de que a nova era constitucional reabilitava os homens que a Inquisição havia punido.

— personagens —

José Bonifácio de Andrada e Silva

Cientista, diplomata, futuro Patriarca da Independência

Joaquim Gonçalves Ledo

Jornalista e ativista liberal, articulador das lojas do Rio

José Clemente Pereira

Juiz e político, futuro signatário do "Fico"

— fontes —

  • O Processo de Independência no Brasil — István Jancsó
  • Joaquim Gonçalves Ledo e a Maçonaria — Raimundo Faoro