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O Grande Oriente da França
Sob a liderança do Duque de Chartres, a Grande Loja da França se reorganiza como Grande Oriente — e embarca num caminho iluminista que culminará na ruptura com a Maçonaria anglo-saxônica em 1877.
E m 1773, a Grande Loja da França — instituição que já reunia centenas de lojas espalhadas pelo reino — passou por uma reorganização profunda que a rebatizou de Grande Oriente de France (GOdF). À frente do processo estava Louis-Philippe d’Orléans, Duque de Chartres (1747–1793), primo do rei Luís XVI e representante da alta nobreza liberal que via nas ideias iluministas uma renovação possível do Antigo Regime — não a sua destruição. Poucos poderiam prever que esse mesmo Duque viveria para ver, e escolher, o lado da guilhotina.
A Maçonaria havia chegado à França pelas mãos de jacobitas escoceses exilados e nobres ingleses em viagem, por volta da década de 1720. Cresceu rapidamente em Paris e nas províncias, adaptando-se ao gosto francês por filosofia, eloquência e sociabilidade refinada. As lojas tornaram-se espaços onde aristocratas, burgueses instruídos e intelectuais se encontravam em pé de igualdade ritual — “irmãos” pela duração da troneira, qualquer que fosse a diferença de nascimento lá fora. Esse microcosmo igualitário, multiplicado por centenas de lojas, criou uma infraestrutura social que as ideias iluministas de Voltaire, Rousseau e Montesquieu percorreram com velocidade.
Alguns historiadores apontam que a Maçonaria não “causou” a Revolução Francesa — a economia, a crise fiscal da monarquia e a seca de 1788 foram causas bem mais imediatas. O que as lojas fizeram foi fornecer uma rede de sociabilidade onde líderes revolucionários já se conheciam antes de subir às tribunas: Mirabeau, Sieyès, Camille Desmoulins, Lafayette — todos frequentavam lodges e já haviam treinado o debate político e a retórica de convencimento nos rituais e festins maçônicos. Não foi conspiração; foi cultura.
Quando a tirania torna-se lei, a rebelião é dever — e o avental do maçom não impede de empunhar a espada do cidadão.
O Grand Orient de France desenvolveu ao longo do século XVIII e XIX uma personalidade institucional cada vez mais distinta da Maçonaria inglesa: mais política, mais anticlerical, mais disposta a debater filosofia e religião abertamente em loja. O momento de ruptura definitiva com a tradição anglo-saxônica veio em 1877, quando o GOdF suprimiu de sua constituição a exigência de crença em um Ser Supremo e num Livro da Lei, abrindo a Maçonaria francesa a ateus e agnósticos de forma explícita. A United Grand Lodge of England respondeu retirando o reconhecimento ao GOdF, e esse cisma global entre “Maçonaria regular” — que exige a crença em uma Potência Superior — e “Maçonaria liberal” — que a torna opcional — persiste até hoje, dividindo obediências em todos os continentes, inclusive no Brasil.
O Duque de Chartres, que presidiu o nascimento dessa trajetória, não viveu para ver seus desdobramentos. Em 1792 mudou seu nome para Philippe Égalité como gesto republicano, votou pela morte de seu primo Luís XVI na Convenção Nacional — e em outubro de 1793 foi ele próprio guilhotinado. Da cúpula da maior obediência maçônica aristocrática da Europa ao cadafalso em menos de vinte anos: poucos percursos biográficos ilustram tão dramaticamente as contradições do Iluminismo e da Revolução que ele ajudou, à sua maneira, a construir.
— personagens —
Duque de Chartres (Philippe Égalité)
Grão-Mestre fundador, primo de Luís XVI e futuro revolucionário guilhotinado em 1793
Marquês de Lafayette
Oficial maçom que lutou na Revolução Americana e na Francesa
Emmanuel-Joseph Sieyès
Abade e maçom, autor de "O que é o Terceiro Estado?" — texto-manifesto da Revolução
— fontes —
- Les Francs-Maçons et la Révolution française — Ran Halevi
- Memoires pour servir à l'histoire du jacobinisme — Augustin Barruel
- Freemasonry and the Birth of Modern Democracy — Margaret C. Jacob