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O Cisma entre Antigos e Modernos

Maçons irlandeses fundam em Londres uma segunda Grande Loja rival, acusando os "Modernos" de terem abandonado rituais e palavras antigas — e o cisma durará 62 anos.

data17 de julho de 1751 localLondres, Inglaterra

E m 17 de julho de 1751, um grupo de maçons de origem predominantemente irlandesa reuniu-se em Londres e proclamou a fundação de uma nova Grande Loja de Inglaterra. Não era um ato de harmonia — era uma declaração de guerra institucional. Os fundadores chamavam a si mesmos de Antients (“Antigos”) e ao rival estabelecido de Moderns (“Modernos”): uma nomenclatura que já carregava o veredito. Havia algo de subversivo na audácia: acusar a Grande Loja de 1717 — a mais velha da Maçonaria especulativa — de ser a novata.

A queixa dos Antigos era ritual e moral. Segundo eles, a Grande Loja “Moderna” havia, ao longo dos anos, alterado ou abandonado práticas essenciais: certas palavras de passe, a ordem de alguns sinais e ornamentos rituais, e — acusação mais grave — havia enxugado referências cristãs dos graus para tornar a Maçonaria mais palatável às elites cosmopolitas de Londres. Os Modernos respondiam que os Antigos eram novatos disfarçados de guardiões da tradição. O debate em torno de quem era mais autêntico tornou-se o tema central da Maçonaria inglesa por mais de meio século.

A figura que deu coesão intelectual aos Antigos foi Laurence Dermott (1720–1791). Nascido na Irlanda, iniciado em Dublin, chegou a Londres como trabalhador e rapidamente se revelou um polemista de primeira linha. Em 1752 tornou-se secretário-geral da Grande Loja dos Antigos — cargo que, na prática, equivalia ao de seu cérebro administrativo. Em 1756 publicou o “Ahiman Rezon”, o livro de constituições dos Antigos, cujo título hebraico de significado disputado (alguns leem “irmãos escolhidos”, outros “ajudante de uma multidão escolhida”) já era, por si só, uma provocação erudita ao rival.

Os Modernos abandonaram as palavras antigas; nós as guardamos. Que o tempo julgue qual loja merece o nome de antiga.

— Atribuído a Laurence Dermott (paráfrase do espírito de seus escritos polêmicos)

O cisma teve consequências práticas além da rivalidade simbólica. As duas Grandes Lojas concediam cartas constitutivas a lojas diferentes, recusavam reconhecimento mútuo, e os graus conferidos por uma eram rejeitados pela outra. Militares britânicos no exterior fundavam lojas sob qualquer das duas jurisdições — o que fragmentou a Maçonaria em colônias e territórios conquistados. Na América do Norte, por exemplo, lojas “Modernas” e lojas “Antigas” coexistiram sem comunicação oficial durante décadas. Ironicamente, muitos dos rituais hoje praticados em todo o mundo — incluindo no Brasil — descendem mais da tradição “Antiga” de Dermott do que da “Moderna” original de Anderson.

A reconciliação final veio em 27 de dezembro de 1813, exatamente 62 anos após a fundação dos Antigos. As duas Grandes Lojas se fundiram sob a presidência do Duque de Sussex para formar a United Grand Lodge of England (UGLE), que existe até hoje. O rito de união incluiu uma “obliteração” formal de algumas disputas rituais — palavras foram trocadas, posições de sinais foram harmonizadas — numa negociação que alguns historiadores chamam de o maior compromisso litúrgico da história maçônica. A UGLE tornou-se o árbitro de “regularidade” maçônica que reconhece ou não outras obediências ao redor do mundo, papel que exerce, com toda a sua controvérsia, até os dias de hoje.

— personagens —

Laurence Dermott

Irlandês, secretário-geral genial e combativo dos Antigos, autor do Ahiman Rezon

Duque de Atholl

Grão-Mestre dos Antigos por longos períodos, que deu outro nome à facção

Duque de Sussex

Príncipe real que presidiu a reunificação de 1813 sob a UGLE

— fontes —

  • Ahiman Rezon (1756) — Laurence Dermott
  • The Two Grand Lodges of England — Lionel Vibert
  • A History of English Freemasonry — John Hamill