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A Grande Loja da Escócia
No dia de Santo André, lojas escocesas de séculos de antiguidade se federam em Edimburgo — e William St Clair renuncia seu patronato hereditário para fundar uma obediência eletiva.
E m 30 de novembro de 1736 — dia de Santo André, padroeiro da Escócia —, representantes de lojas espalhadas por todo o país reuniram-se em Edimburgo para um ato que definiria a história da Maçonaria no mundo: a fundação da Grande Loja da Escócia. Não era, contudo, uma criação do nada. Ao contrário do que ocorreu em Londres em 1717, a Maçonaria escocesa já existia há séculos sob forma operativa, com lojas cujos registros remontavam ao século XVI.
A diferença entre os dois eventos é fundamental. A Grande Loja de Londres de 1717 foi essencialmente uma invenção — quatro lojas de origem incerta que se uniram para criar uma autoridade nova. A Grande Loja da Escócia de 1736 foi uma federação: lojas como a Mary’s Chapel de Edimburgo (cujas atas datam de 1598), a Loja de Kilwinning (que se arrogava ser a mais antiga do mundo) e a Loja de Aberdeen vieram à mesa como instituições com vida própria e memória longa. Por essa razão, os maçons escoceses sempre reivindicaram uma legitimidade distinta — a de uma tradição que não nasceu em uma taverna, mas em canteiros de obras medievais.
O primeiro Grão-Mestre eleito foi William St Clair de Roslin (1700–1778), descendente de uma família que há gerações reivindicava o patronato hereditário sobre os pedreiros escoceses. Os St Clair de Roslin sustentavam que um édito real da época de James II lhes havia conferido jurisdição sobre todos os ofícios de construção da Escócia. Essa pretensão, se aceita, tornaria a Grande Loja não uma associação voluntária, mas um feudo familiar. Para que a federação funcionasse em bases modernas — com eleição, prestação de contas e autonomia das lojas —, era preciso que St Clair abrisse mão de sua reivindicação.
Renuncio livremente a toda pretensão hereditária sobre os maçons e ofício de pedraria da Escócia, para que a fraternidade escolha livremente seu Grão-Mestre segundo sua própria vontade e liberdade.
O gesto de St Clair foi ao mesmo tempo pragmático e simbólico. Ao renunciar voluntariamente, ele não perdia prestígio — tornava-se, pelo contrário, o fundador consensual de uma nova era. Foi eleito por aclamação como o primeiro Grão-Mestre da Grande Loja da Escócia, cargo que exerceu com autoridade suficiente para consolidar a federação nos seus anos iniciais. A transição do patronato hereditário para o governo eletivo refletia os mesmos ventos iluministas que, ao longo do século XVIII, transformariam monarquias em repúblicas na Europa e nas Américas.
A Grande Loja da Escócia desenvolveria, ao longo dos séculos seguintes, uma influência internacional desproporcionalmente grande em relação ao tamanho do país. Lojas escocesas foram fundadas em colônias britânicas em todos os continentes, e a tradição ritual preservada em Edimburgo influenciou práticas maçônicas em lugares tão distantes quanto a Índia, a Austrália e o Brasil. Curiosamente, o chamado Rito Escocês — hoje o sistema de graus mais difundido no mundo maçônico — desenvolveu-se principalmente na França do século XVIII, não na Escócia; mas o nome homenageia exatamente esse prestígio histórico que a Maçonaria escocesa soube cultivar desde o dia de Santo André de 1736.
— personagens —
William St Clair de Roslin
Primeiro Grão-Mestre eleito, herdeiro do patronato histórico dos pedreiros escoceses
George Drummond
Lord Provost de Edimburgo, articulador político da federação
Mestres das Lojas Operativas
Representantes das lojas Mary's Chapel, Kilwinning e Aberdeen, entre outras
— fontes —
- History of the Grand Lodge of Ancient Free and Accepted Masons of Scotland — David Murray Lyon
- The Freemasons' Guide and Compendium — Bernard E. Jones
- Freemasonry — A Journey Through Ritual and Symbol — W. Kirk MacNulty