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As Constituições de Anderson

James Anderson publica o texto fundador da Maçonaria moderna — regras, história lendária e a famosa cláusula que abriu a Ordem a homens de qualquer crença.

data17 de janeiro de 1723 localLondres, Inglaterra

A penas seis anos depois da fundação da Grande Loja de Londres, a jovem instituição ainda carecia de algo essencial: uma identidade escrita. As lojas operativas medievais possuíam seus manuscritos — o Regius, o Cooke, os Old Charges — mas eram documentos díspares, copiados à mão, repletos de variações locais. A Maçonaria especulativa precisava de um texto único que fosse ao mesmo tempo regulamento, história e filosofia.

Foi James Anderson (1679–1739), pastor presbiteriano escocês radicado em Londres, quem recebeu a incumbência. Por volta de 1721, o Grão-Mestre George Payne já havia compilado um primeiro rascunho de regulamentos. Coube a Anderson — supervisionado de perto por John Theophilus Desaguliers, o cientista huguenote que se tornaria o terceiro Grão-Mestre e a mente mais sistemática da Grande Loja — expandir aquele esboço em um volume definitivo. Em 1723, saiu dos prelos londrinos The Constitutions of the Free-Masons.

O livro é uma obra singular, com três partes distintas. A primeira é uma história lendária da Maçonaria que começa com Adão no Paraíso — onde, segundo Anderson, “a Geometria foi ensinada pelos anjos” — e avança por Noé, Moisés, o rei Salomão, Euclides, os romanos e os reis saxônicos da Inglaterra até chegar aos dias da Grande Loja. É um gênero de escrita chamado laudatio: não história no sentido moderno, mas narrativa de legitimação, que ancorava a nova instituição em uma antiguidade imaginada. Alguns historiadores apontam que Anderson sabia muito bem que estava construindo um mito fundador, não relatando fatos — o que não diminui a função simbólica do texto.

A segunda e mais duradoura parte são os Antigos Encargos (Old Charges), reelaboração dos deveres morais que os manuscritos medievais impunham aos pedreiros operativos. Ali estão normas sobre obediência ao Grão-Mestre, sigilo, conduta entre irmãos e — mais importante — a célebre cláusula sobre religião. Anderson abandonou a exigência medieval de que o maçom fosse cristão e a substituiu por uma formulação de tom nitidamente deísta: o maçom deve obedecer “àquela religião na qual todos os homens concordam” — ou seja, a crença em um Ser Supremo e em uma moralidade universal, independente de denominação. Com isso, anglicanos, católicos, dissidentes protestantes e até judeus poderiam, em teoria, compartilhar a mesma loja.

Deixar suas opiniões particulares para si mesmos, e que a Maçonaria seja o centro de união e o meio de conciliar verdadeira amizade entre pessoas que de outra forma teriam permanecido perpetuamente afastadas.

— James Anderson, As Constituições dos Franc-Maçons (1723)

A terceira parte contém os Regulamentos Gerais da Grande Loja: eleições, assembleias, jurisdição, taxas e procedimentos. É o código burocrático da instituição — menos celebrado, mas igualmente fundador. Uma segunda edição, mais extensa e historicamente mais discutida, foi publicada em 1738, acrescentando material lendário adicional e mencionando explicitamente a reunião de 1717.

O impacto das Constituições foi imediato e duradouro. Elas forneceram o modelo que toda Grande Loja subsequente — na França, nos Estados Unidos, no Brasil — tomaria como referência ao se organizar. A ênfase em moralidade universal, em vez de doutrina confessional, tornou possível que a Maçonaria cruzasse fronteiras religiosas e nacionais com uma velocidade que nenhuma outra fraternidade havia conseguido. A Ordem cresceu da taverna Goose & Gridiron para uma rede transatlântica em menos de cinquenta anos — e as Constituições de Anderson foram o manual que viabilizou essa expansão.

— personagens —

James Anderson

Pastor presbiteriano escocês, compilador das Constituições

John Theophilus Desaguliers

Cientista huguenote, terceiro Grão-Mestre, diretor intelectual do projeto

George Payne

Grão-Mestre que reuniu os regulamentos anteriores

— fontes —

  • The Constitutions of the Free-Masons (1723) — James Anderson
  • The Genesis of Freemasonry — Douglas Knoop & G.P. Jones
  • A New Encyclopaedia of Freemasonry — Arthur Edward Waite