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O Manuscrito Cooke

Segundo manuscrito maçônico mais antigo, o Cooke expande em prosa a mitologia e os encargos do ofício, tornando-se fonte direta das Constituições de Anderson de 1723.

localInglaterra

Se o Regius Poem é o elo mais antigo da cadeia documental maçônica, o Manuscrito Cooke é o elo que a conecta ao presente. Conservado na British Library sob a cota Add MS 23198, datado por paleografia entre 1410 e 1450 — com o ano de 1425 adotado como referência convencional pelos pesquisadores —, o documento é o segundo mais antigo dos chamados Old Charges da Maçonaria. Mas é também o mais influente na formação da Maçonaria especulativa moderna: suas páginas foram consultadas, parafraseadas e reorganizadas por James Anderson ao redigir as famosas Constituições de 1723, o texto fundacional da Grande Loja de Londres.

Ao contrário do Regius, que é um poema em verso, o Cooke é escrito em prosa. Essa diferença formal importa: onde o Regius canta, o Cooke argumenta. O tom é mais narrativo, mais histórico — embora “histórico” no sentido medieval, onde mito e crônica se mesclam sem cerimônia. O manuscrito abre com uma longa história do surgimento das artes e ciências desde os filhos de Adão e Eva, passa por Noé e o Dilúvio, alcança Nemrod e a Torre de Babel, chega ao Egito de Euclides e finalmente desemboca na Inglaterra medieval — tudo isso como prelúdio para apresentar os encargos práticos do ofício dos pedreiros.

O que o Cooke revela, de maneira mais explícita que o Regius, é a cosmologia implícita das corporações medievais de construtores: o ofício da pedra não é apenas um trabalho, é a aplicação da Geometria — e a geometria, para o pensamento escolástico, era a ciência mais próxima da mente divina. Deus, na teologia medieval, havia criado o universo segundo medida, número e peso (mensura, numero, pondere — parafraseando o Livro da Sabedoria). O pedreiro que dominava a geometria era, em algum sentido simbólico, um colaborador da criação. Esse fundamento teológico latente no Cooke é o que tornará a Maçonaria especulativa tão atraente para os filósofos e cavalheiros do século XVIII.

E de todas as ciências do mundo, sete são as principais, e a primeira e a mais honrada é a Gramática. A segunda é a Retórica. A terceira é a Lógica. A quarta é a Aritmética. A quinta é a Geometria. A sexta é a Música. A sétima é a Astronomia. E a mais valiosa delas no ofício é a Geometria.

— O Manuscrito Cooke, em tradução do inglês médio

Os Old Charges propriamente ditos, que ocupam a segunda metade do manuscrito, são versões mais desenvolvidas e detalhadas das regras que já apareciam no Regius. Há instruções sobre como um mestre deve admitir aprendizes, quantos anos o aprendizado deve durar, como se comportar diante de senhores e prelados, como guardar os segredos da loja e como resolver disputas internas. Lendo esses encargos, torna-se difícil não reconhecer o embrião das cerimônias de iniciação e dos deveres fraternais que caracterizarão a Maçonaria especulativa — ainda que o contexto seja inteiramente diferente.

A trajetória do manuscrito da Idade Média até a modernidade é ela própria parte da história. Por séculos, o Cooke circulou em cópias manuscritas entre as lojas inglesas, sendo copiado, ampliado e modificado conforme as necessidades locais. Em 1861, o advogado londrino Matthew Cooke — de quem o documento recebeu o nome — realizou a primeira edição crítica do manuscrito, publicando-o com transcrição e notas históricas. Cooke reconheceu no texto um documento de importância excepcional para a história da Maçonaria, mas também para a história social inglesa medieval.

A influência do Cooke sobre James Anderson ao redigir as Constituições de 1723 é documentada pelos estudiosos pela análise comparativa das passagens. Anderson reaproveitou a estrutura narrativa — a genealogia bíblica, a história lendária do ofício, a chegada à Inglaterra — e a reescreveu numa linguagem iluminista, substituindo o inglês médio arcaico pelo inglês culto do século XVIII e acrescentando o verniz filosófico e deísta adequado ao gosto da época. O Cooke é, portanto, o elo mais direto entre a tradição operativa medieval e a Maçonaria especulativa moderna: o manuscrito que os fundadores da Grande Loja de Londres tinham nas mãos quando decidiram criar uma nova forma de fraternidade para um novo século.

— personagens —

Matthew Cooke

Advogado e estudioso londrino que editou e publicou o manuscrito em 1861

James Anderson

Pastor presbiteriano que usou o Cooke como fonte das Constituições de 1723

Escriba anônimo

Autor medieval do manuscrito, datado c. 1425

— fontes —

  • The Cooke Manuscript (Add MS 23198) — Anônimo (séc. XV)
  • The Constitutions of the Free-Masons (1723) — James Anderson
  • The History of Freemasonry: Its Antiquities, Symbols, Constitutions, Customs — Albert Mackey