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Os Schaw Statutes
William Schaw, Mestre de Obras do Rei Jaime VI, promulgou em 1598-1599 os estatutos que reorganizaram os pedreiros escoceses e introduziram, pela primeira vez, elementos rituais e morais no ofício.
No final do século XVI, a Escócia era um reino em transformação acelerada. A Reforma Protestante havia varrido estruturas eclesiásticas centenárias, e a corte de Jaime VI — que em 1603 se tornaria também Jaime I da Inglaterra, unindo as duas coroas — buscava modernizar a administração do reino em todos os seus aspectos, inclusive nas corporações de ofício. Foi nesse contexto que William Schaw (c. 1550–1602), nomeado Master of Works — Mestre de Obras do Rei — tomou entre suas mãos a reorganização dos pedreiros escoceses e, sem saber, preparou o terreno para uma revolução que transcenderia em muito os limites do canteiro de obras.
Schaw promulgou dois conjuntos de estatutos: o primeiro em 28 de dezembro de 1598, o segundo — mais elaborado e mais citado pelos historiadores — em 28 de dezembro de 1599. Os textos regulavam as lojas operativas escocesas, fixando hierarquias, deveres dos mestres e dos vigilantes, processos de admissão de aprendizes e mecanismos de resolução de conflitos. Até aqui, tudo dentro do esperado de um regulamento corporativo do período. Mas havia algo nos estatutos de Schaw que os tornava diferentes de qualquer texto anterior na história dos pedreiros europeus.
Os estatutos de 1599 contêm uma referência explícita à “arte da memória” — “the art of memory and the science thereof” — como algo que os membros das lojas deveriam cultivar e dominar. A arte da memória era um sistema mnemônico sofisticado, desenvolvido na Antiguidade clássica (Cícero o descreveu) e reelaborado por pensadores renascentistas como Giordano Bruno e Giulio Camillo. Não era uma técnica de canteiro: era uma prática intelectual, filosófica, com dimensões esotéricas. Sua presença num estatuto de pedreiros operativos é o sinal mais claro de que, no final do século XVI, algo estava mudando profundamente na natureza das lojas escocesas — e de que William Schaw foi o agente consciente dessa mudança.
Estatutos e ordenanças a serem observados por todos os mestres maçons deste reino, estabelecidos e ordenados por William Schaw, Mestre de Obras de Sua Majestade, Juiz Geral sobre toda a Arte da Maçonaria deste reino.
David Stevenson, o historiador que mais aprofundadamente estudou esse período, argumenta que Schaw foi o verdadeiro arquiteto da transição da Maçonaria operativa para a especulativa — não os fundadores da Grande Loja de Londres em 1717, que colheram o que Schaw havia plantado. Ao introduzir a arte da memória nos estatutos, Schaw estava convidando os pedreiros escoceses a adotarem uma prática intelectual e esotérica típica do humanismo renascentista. Estava, em outras palavras, transformando lojas de pedreiros em espaços de cultura filosófica — precisamente o que a Maçonaria especulativa seria.
Os estatutos também consolidaram a estrutura de lojas como unidades organizacionais permanentes com jurisdição territorial definida. A Lodge of Edinburgh — Mary’s Chapel recebeu precedência formal sobre as demais lojas escocesas, e seu livro de atas — preservado de maneira ininterrupta desde 1599 — tornou-se o registro mais antigo de uma loja maçônica em atividade contínua no mundo. A Mother Lodge Kilwinning reivindicava, e ainda reivindica, antiguidade ainda maior, mas sua documentação contínua é menos completa.
O papel de Sir William St Clair de Roslin nesse contexto também merece atenção. A família St Clair — construtores da famosa Rosslyn Chapel (1446-1484), com seu intrincado simbolismo arquitetônico — mantinha pretensões hereditárias de supervisão sobre todos os pedreiros escoceses. Essa relação entre uma família nobre de tradição esotérica e as lojas de pedreiros é mais uma das camadas que tornam a história da Maçonaria escocesa do século XVI tão rica e tão debatida pelos historiadores.
William Schaw morreu em 1602, apenas alguns anos depois de promulgar seus estatutos. Não viveu para ver o que havia iniciado. Mas os documentos que deixou — dois conjuntos de estatutos que transformaram lojas de pedreiros em espaços de cultura intelectual e filosófica — sobreviveram a ele e moldaram o que a Maçonaria se tornaria no século seguinte. Quando os primeiros cavalheiros não-operativos começaram a ser admitidos nas lojas escocesas, o terreno já estava preparado por Schaw. A transição da pedra ao símbolo, do canteiro à filosofia, do ofício à fraternidade — essa transformação tem muitos autores, mas poucos tão decisivos quanto o Master of Works de Jaime VI.
— personagens —
William Schaw
Mestre de Obras do Rei (Master of Works), autor dos estatutos
Jaime VI da Escócia
Rei da Escócia (depois Jaime I da Inglaterra), soberano a cujo serviço Schaw trabalhava
Sir William St Clair de Roslin
Nobre escocês com pretensão hereditária de supervisão sobre os pedreiros escoceses
— fontes —
- The Origins of Freemasonry: Scotland's Century 1590-1710 — David Stevenson
- The Schaw Statutes (1598 e 1599) — transcrição e análise — Robert Freke Gould
- History of Freemasonry — Robert Freke Gould