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O Regius Poem (Halliwell MS)

O mais antigo manuscrito maçônico conhecido, com cerca de 794 versos em inglês médio, codifica os primeiros "encargos" morais e profissionais dos pedreiros medievais ingleses.

localInglaterra

Guardado hoje na British Library sob a cota Royal MS 17 A I, o manuscrito que ficou conhecido como Regius Poem ou Halliwell Manuscript é o documento maçônico mais antigo que a humanidade conservou. Datado por paleografia entre 1390 e 1425 — a datação mais consensual aponta para cerca de 1390 —, o texto é um poema em inglês médio de aproximadamente 794 linhas, repleto de instruções morais, regras profissionais e mitologia corporativa que nos diz, com rara clareza, o que era ser um pedreiro organizado na Inglaterra medieval.

O poema abre com uma genealogia mítica do ofício. Segundo o texto, a Maçonaria tem origem no Egito antigo, onde Euclides — o grande geômetra da Antiguidade — teria ensinado a arte da construção e da geometria a jovens nobres que precisavam de um meio honesto de vida. A geometria, no pensamento medieval, era mais do que medidas e ângulos: era a ciência fundamental de todas as artes, a linguagem com que Deus havia ordenado o mundo. Ao colocar Euclides na raiz da tradição dos pedreiros, o autor anônimo do Regius não apenas inventava uma genealogia respeitável — vinculava o ofício manual à mais nobre das ciências do currículo universitário medieval.

Da Grécia e do Egito, o texto salta para a Inglaterra saxônica. O rei Athelstan (893–939), que unificou os reinos anglosaxões e é considerado o primeiro rei de Inglaterra como nação, aparece no poema como o grande patrono real da Maçonaria inglesa. Segundo a lenda, Athelstan teria mandado convocar uma grande assembleia de mestres pedreiros em York, no ano de 926, presidida por seu filho Edwin. Nesse concílio fictício, as regras do ofício teriam sido formalizadas e as Constituições da Maçonaria inglesa promulgadas pela primeira vez. A história é lendária — nenhum registro histórico independente confirma o evento —, mas cumpria uma função vital: conferia à corporação dos pedreiros medievais uma ancestralidade real e uma origem que soava a lei e a autoridade soberana.

Aqui começam os deveres de Maçonaria. Aquele que estes lê deve por bem entender que eles regem os mestres e os aprendizes com justiça, para a honra de Deus e do ofício.

— O Regius Poem, abertura (tradução do inglês médio)

A estrutura do Regius divide-se em duas partes. A primeira — e maior — contém os Old Charges, os “encargos antigos”: uma série de regras morais e profissionais que um mestre e um aprendiz deviam observar. Não roubar, não caluniar o irmão de ofício, não seduzir a mulher ou a filha do mestre, não jogar dados nem frequentar tavernas desonrosas, manter os segredos do conselho da loja. Há, nessa lista, a estrutura ética de uma fraternidade profissional que já pensava em termos de lealdade mútua e reputação coletiva — valores que, séculos depois, a Maçonaria especulativa reformularia em linguagem filosófica e simbólica.

A segunda parte do Regius é mais surpreendente: trata de boas maneiras à mesa, de como se comportar em presença de nobres e de deveres cristãos gerais. Alguns estudiosos interpretam esse segmento como evidência de que o documento era usado também como material de instrução moral para jovens aprendizes — o que sugere que as lojas medievais tinham função educativa além do mero treinamento técnico.

O manuscrito dormiu por séculos nas coleções reais britânicas até que, em 1840, o bibliotecário e estudioso de literatura inglesa James Orchard Halliwell o identificou, transcreveu e publicou. Halliwell tinha apenas vinte anos quando realizou a descoberta — e seu interesse era primariamente filológico, não maçônico. O título “Halliwell Manuscript” homenageia esse descobridor moderno; “Regius Poem” remete à sua procedência da coleção real (Royal).

O Regius Poem não prova que existia Maçonaria especulativa no século XIV — o texto é inequivocamente operativo, voltado a pedreiros que construíam com pedra de verdade. Mas demonstra que já havia, nessas corporações medievais, uma cultura de formalização escrita, de genealogia simbólica, de ética fraternal e de transmissão ritualizada do conhecimento. Esses elementos são precisamente os que a Maçonaria especulativa absorveria e reinterpretaria a partir do final do século XVII. O Regius é, portanto, o mais antigo elo textual de uma cadeia cujo elo mais recente e mais famoso é a fundação da Grande Loja de Londres em 1717 — mas que, como o próprio Regius atesta, vem de muito mais longe.

— personagens —

James Halliwell

Bibliotecário e estudioso que publicou o manuscrito em 1840

Athelstan

Rei saxão lendário, patrono mítico da Maçonaria inglesa segundo o texto

Edwin

Filho de Athelstan, figura lendária associada ao concílio de York de 926

— fontes —