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As Lojas União e Reunião no Rio
Pouco depois da Cavaleiros da Luz em Pernambuco, surgem no Rio de Janeiro e em Niterói as primeiras lojas da capital colonial — precursoras das articulações que levariam à Independência.
imagem: Placeholder — substituir por vista do Rio de Janeiro colonial (séc. XIX).
O Rio de Janeiro de 1801 era uma cidade colonial ainda sem a grandeza que a Família Real lhe imporia em 1808. Mas era também a capital administrativa do Brasil — e, como tal, concentrava os homens que mais tinham a ganhar ou a perder com as transformações que se anunciavam no mundo atlântico.
Foi nesse Rio pré-joanino que surgiram as lojas União (Rio de Janeiro) e Reunião (Niterói) — os primeiros núcleos maçônicos documentados na capital.
Um Rio em transformação silenciosa
Os membros iniciais das duas lojas eram, em sua maioria, comerciantes, militares de patente média e funcionários da burocracia colonial. Homens que transitavam entre o Rio e Lisboa, que liam gacetas europeias e entendiam que o mundo estava mudando mais rápido do que a Coroa portuguesa conseguia acompanhar.
A chegada de D. João VI em março de 1808 — com a corte inteira e milhares de portugueses — alterou profundamente o perfil da Maçonaria carioca. Entre os oficiais e cortesãos que vieram com a frota real, vários eram maçons filiados a lojas portuguesas. O Rio passou a ter, de repente, uma Maçonaria mais europeia, mais sofisticada, mais conectada.
Os debates de loja como laboratório político
Entre 1815 e 1818, as lojas do Rio tornaram-se fóruns privilegiados de debate político. Constitucionalismo, o modelo britânico de monarquia parlamentar, a experiência americana — todos esses temas circulavam nos trabalhos de coluna. A questão que unificava todos os debates era uma só: qual seria o futuro do Brasil?
O Brasil precisará de cabeças treinadas em discussão livre quando a hora de se reger por si mesmo chegar.
A voz maçônica do exílio
Hipólito José da Costa nunca chegou a trabalhar pessoalmente nas lojas do Rio desse período — estava exilado em Londres desde 1805, quando fugiu da Inquisição portuguesa após ser preso por ser maçom. De Londres, fundou em 1808 o Correio Braziliense, o primeiro jornal sistemático em língua portuguesa dedicado ao Brasil.
O Correio chegava ao Rio contrabandeado nas mesmas embarcações que traziam fazendas inglesas e instrumentos científicos. Era lido nas lojas. Era copiado à mão. Para muitos maçons cariocas, Hipólito era a consciência intelectual do movimento — uma voz que dizia em papel o que não se podia dizer em voz alta.
A proibição de 1818
Em 1818, D. João VI proibiu formalmente a Maçonaria no Brasil por alvará régio — em parte pela pressão da Santa Sé após os eventos de Pernambuco em 1817, em parte por genuína desconfiança dos debates políticos que ocorriam dentro das lojas.
A perseguição foi relativa: lojas fecharam oficialmente mas continuaram a se reunir informalmente. A União e a Reunião não desapareceram — hibernaram, à espera de um clima mais favorável. Esse clima chegaria em 1820, com a Revolução Liberal do Porto.
Sabia que… Hipólito da Costa, embora exilado em Londres durante todo esse período, foi nomeado em 1821 Encarregado de Negócios em Londres — tornando-se um diplomata oficial do Brasil, sinal visível de que a nova era constitucional mudava até o estatuto dos exilados maçônicos.
— personagens —
Hipólito da Costa
Jornalista maçom no exílio, editor do Correio Braziliense
José Bonifácio de Andrada e Silva
Cientista e diplomata, figura de fundo das lojas cariocas
— fontes —
- Correio Braziliense: Memória, Política e Identidade — Ana Luiza Martins
- José Bonifácio de Andrada e Silva — Alberto Sousa